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Vencendo a Depressão

A Raíz da Depressão

Capítulo Vinte e Dois de 1 Samuel

Saul Massacra os Sacerdotes em Nobe (22.1-23)
Esta seção geral (21.1-27.2) inclui a história do brutal e incrível massacre, por parte de Saul, de praticamente toda a casta sacerdotal que servia no templo, Isso Saul fez meramente para vingar-se de o sumo sacerdote ter ajudado Davi em seu momento de necessidade. A história ilustra o ódio feroz e satânico de Saul por Davi, que o levou ao extremo de matar os sacerdotes de Yahweh. O poder divino, afinal, usaria os filisteus para derrotar Saul, o que reequilibraria a escala moral. Davi conseguiu escapar de Gate, fingindo-se de doido (capítulo 21). Ele então mudou-se para Adulão, cerca de 32 quilômetros a sudoeste de Jerusalém e a metade disso de Gate. Ali se refugiou com cerca de 400 homens, os quais, por várias razões, estavam refugiados (vs. 2). Posto em posição de ilegitimidade pelo poder real, Davi seria perseguido, mas sua família também corria perigo. Portanto, Davi transferiu-os para Moabe (vss. 3 e 4). Lembremos que Rute, a bisavó de Davi, era moabita, pelo que havia antigos laços familiares naquele lugar, e é provável que isso tenha encorajado Davi a enviar seus familiares para lá. Entrementes, Davi aproveitou o descontentamento dos 400 refugiados e formou um pequeno exército, tornando-se o líder. 22.1,2
Caverna de Adulão. Ver sobre este nome no Dicionário, Davi ali se refugiou. O nome significa “fortaleza”, mas uma corrupção do termo hebraico nos brindou com o sentido de “caverna”. Tornou-se um lugar de retiro para Davi, tanto antes como depois da captura de Jerusalém (ver II Sam. 23.13-17). Os parentes de Davi, em perigo, uniram-se a ele no exército. Jessé e sua esposa são mencionados neste texto, pelo que é evidente que eles não morreram antes dos eventos relatados no capítulo 22. No mesmo lugar estavam refugiados os descontentes, a maioria adversários de Saul, pelo que não foi difícil reuni-los em uma força anti- Saul. O “rei" Davi, portanto, já tinha um núcleo de poder, que funcionou como uma elite de guarda-costas para Davi, favorecendo o soerguimento de sua estrela. “Davi, pois, tornou-se um fora-da-lei, vivendo na fortaleza de Adulão com os parentes e aqueles 400 descontentes, que se reuniram ao seu redor. Davi tornou- se uma espécie de Robin Hood” (John C. Schroeder, in loc.). “A situação do país, que se tornava cada vez mais melancólica sob Saul, levou os homens a buscar um líder que representasse uma esperança para o futuro. Davi não dispensou esses refugiados, muitos deles israelitas distinguidos e proeminentes, mas, antes, organizou-os em uma força militar” (Ellicott, in loc.). A palavra “aperto” implica perseguição. Davi não era o único de quem Saul abusava. Alguns dos refugiados estavam em dívida e tinham escapado do aprisionamento e da escravidão. Embora existissem leis para proteger os desafortunados (ver Êxo. 22.25; Lev. 25.36 e Deu. 23.19), havia muitos abusos. Os devedores eram reduzidos à servidão. Talvez entre aqueles 400 seguidores originais de Davi houvesse aqueles (rês famosos elementos mencionados em II Sam. 23.13,14 e I Crô. 11.15,16.
22.3
Mispa. Ver no Dicionário o artigo com esse nome. A Mispa presente é a terceira da lista. Não tem sido identificada sem debates. Alguns estudiosos a associam com Quir. Rute, bisavó de Davi, era moabita e deu a Davi algumas conexões com o lugar. Ele pensava que seus parentes poderiam permanecer no lugar até que terminasse a perseguição movida por Saul. Ver Rute 4.17. Mais tarde, Davi tratou severamente com os moabitas dominados (ver II Sam. 8.2), e alguns pensam que não foi muito elegante, por parte de Davi, agir dessa forma, depois que eles deram refúgio à sua família, em tempo de pressão. Outros, com base na passagem de II Samuel, questionam a autenticidade da notícia no capítulo 22, de que a família de Davi se deslocou para lá. Mas muitas circunstâncias históricas foram ignoradas, e não podemos solucionar todos os problemas relacionados a textos aparentemente contraditórios. “Davi não podia deixar seus parentes ao alcance de Saul, e achou inconveniente que eles passassem por todas as fadigas da vida militar. Por isso, pediu ao rei de Moabe que lhes desse abrigo. Esse rei, um dos adversários de Saul, de bom grado acatou o pedido, tendo este vindo de uma pessoa da parte de quem esperaria amizade e consideráveis vantagens” (Adam Clarke, in loc.).
A palavra Mispa significa “torre de vigia". Provavelmente era uma fortaleza na região montanhosa de Moabe. A distância entre Mispa e o sul de Judá não era grande, pelo que era um lugar conveniente para os refugiados ficarem em asilo temporário. Davi agora esperava o que “Deus faria por ele”. Não acreditava que as circunstâncias adversas perdurassem para sempre. A vontade de Deus haveria de tirá-lo daquela crise. Entrementes, ele tinha lições para aprender dessa adversidade.
Na adversidade, um homem é salvo pela esperança.
(Menandro)
22.4
E com este moraram. Enquanto Davi esteve na fortaleza de Adulão, seus familiares permaneceram a salvo da violência de Saul, junto ao rei de Moabe. Alguns supõem que tenha sido em Mispa que Davi passou a maior parte do exílio. Não lemos novamente sobre os parentes de Davi. Há uma teoria que afirma que o rei de Moabe matou a todos eles, mas não existe nenhuma verdade histórica nisso. Ver Bemidbar Rabba, sec. 14, foi. 212.1.
22.5
Então Davi saiu e foi para o bosque de Herete. Davi poderia ter ficado indefinidamente em Adulão (ou Mispa), se um profeta de Yahweh, Gade, não lhe tivesse dado iluminação especial, por meio de uma profecia. Algumas vezes, para fazermos o que é certo, precisamos de iluminação, de modo que não fiquemos presos em nossas próprias idéias e situações. Oh, Senhor, concede-nos tal graça! Nenhum homem é tão espiritual que não precise, ocasionalmente, de ajuda divina. Ver no Dicionário o artigo intitulado Desenvolvimento Espiritual, Meios do. Ver no Dicionário o artigo sobre os vários homens chamados Gade, nas páginas do Antigo Testamento. Este aqui mencionado é discutido sob o número 4, onde há informações completas. Davi encontraria segurança no território de Judá, que seria uma base melhor para suas operações do que Moabe. Davi estava sendo liderado passo a passo. Ele estava sob tensão, mas essa própria tensão cooperava com o plano divino.
Não fiques neste lugar. Esta fora a ordem baixada pelo profeta. “O sábio conselho do profeta sugeriu, por influência divina, que Davi não se alienasse de seu país e povo, permanecendo em um país estrangeiro, mas retornasse com sua gente para os recônditos mais selvagens de Judá. Ali haveria trabalho para ele e seus seguidores, naqueles distritos afastados e naquela terra devoluta” (Ellicott, in loc.).
Herete. Ver no Dicionário o que se sabe sobre o lugar, A Septuaginta e Josefo dizem “a cidade de Harete”. São usadas as duas formas da palavra, Herete e Harete. Investigações modernas não encontraram nenhum vestígio de florestas à beira da cadeia montanhosa de Hebrom. Mas há tufos de arbustos que continuam assinalando a área. Além disso, florestas antigas desapareceram da Palestina, que era muito mais densamente arborizada que hoje. Kimchi afirma que o lugar era seco e estéril, mas, por causa de Davi, produziu florestas. Mas isso é um embelezamento tolo do texto.
22.6
Ouviu Saul. Enquanto Davi passava por vários estágios dramáticos no exílio, Saul usufruía o conforto de seu lar em Gibeá, sempre com sua lança de confiança na mão, sinal do poder real. Cf. 19.7 e 20.33. Saul ouviu (provavelmente da parte de algum mensageira) que seu inimigo, Davi, estivera em Moabe, mas agora voltava à Judéia, pelo que representava uma ameaça contra Saul. O rei lutava duramente para preservar a lealdade de servos e soldados, parcialmente mediante ofertas de posição e poder, conforme demonstram os versículos seguintes. Saul contava com sua árvore sagrada, sob a qual algumas vezes efetuava seu tribunal e para a qual se retirava a fim de apelar para a adivinhação. A árvore sagrada ficava em um lugar alto. Ver no Dicionário o artigo chamado Lugares Altos.
Numa colina. Ou seja, um bosque sagrado existente em algum lugar elevado, e não Ramá, conforme dizem algumas traduções. Saul sentia-se tanto mais ansioso para consolidar a lealdade de seus súditos, especialmente as figuras militares, visto que agora se sabia que Davi tinha reunido um pequeno exército. Haveria multa tribulação e matança antes que o drama terminasse.
22,7
Peço-vos, filhos de Benjamim. Os cortesãos de Saul eram todos homens de Benjamim, o que pode subentender que o poder de Saul estivesse restrito àquela tribo, e sua influência não era grande em outras partes de Israel. O mesmo
I SAMUEL 1205
ocorrera com o poder dos juizes, que também não foram líderes nacionais. Eles tinham suas respectivas esferas de influência, mas nada além de áreas geográficas restritas. Ou talvez Saul favorecesse os homens de Benjamim acima de outros israelitas, enquanto mantinha poder sobre todas as tribos, pelo menos até certo ponto. Benjamim era a tribo de Saul. Na politica, nada é mais comum que o favorecimento dos “meninos da casa”. Saul tinha investido nos homens de sua cidade favorita e assegurou-lhes que o filho de Jessé não os favoreceria da mesma maneira. Portanto, eles deveriam permanecer leais a Saul. Além de tê-los cumulado de altas posições, Saul também os havia enriquecido, conferindo-lhes terras e vinhas. Por igual modo, os políticos modernos se enriquecem, junto com seus associados, às expensas do povo. Podemos estar certos de que o modo de agir de Saul enfurecera muitos cidadãos de Israel, porquanto o que o rei fazia representava opressão para eles.
22.8
Deslealdade. Saul acusou até seus subchefes e comandantes militares de terem conspirado contra ele. Eles não o haviam informado de quão Íntimos eram Davi e Jônatas (seu filho) e como tinham firmado um pacto de ajuda mútua (ver 20.8 e ss.). Agindo assim, tinham permitido que uma situação de traição crescesse, incluindo até o seu próprio filho. Saul acusou Jônatas injustamente de despertar Davi contra ele, a fim de destroná-lo. Ninguém se compadecera de Saul. Todo homem favorecia Davi, secretamente, em seu coração. Foi assim que Saul se entristeceu e distorceu os fatos. “Os homens atraem uma precária situação moral quando se sentem tristes por si mesmos. Eles apresentam desculpas por suas falhas. E buscam incitar a piedade de outras pessoas. Começam a ver as pessoas com suspeita. Talvez seja mais difícil sermos honestos conosco mesmos do que com os outros. O jargão psicológico contemporâneo nos brindou com a palavra racionalização para indicar essa condição. As pessoas 'racionalizam' sem saber o que estão fazendo” (John C. Schroeder, in loc.). Foi assim que a mente enferma e demoniamente atormentada de forma demoníaca assediava Saul. Ele via perigos por toda parte; a traição de todos; a deslealdade do próprio filho. Cultivava um inferno particular e julgava a vida toda pelo tumulto que rugia dentro dele.
22.9,10
Então respondeu Doegue. Ver sobre esse homem no Dicionário e em 21.7. Doegue aproveitou a amarga diatribe de Saul contra seus próprios súditos a fim de ganhar vantagem. Ele procuraria obter mais terras mostrando-se mais leal que o restante dos homens de Saul. Não é provável que Doegue, um edomita, fosse o chefe de todos os auxiliares de Saul, mas podemos ter certeza de que mantinha elevada posição em sua corte. E aproveitou a oportunidade para revelar, naquele instante, que vira Davi em Nobe, em companhia do sumo sacerdote Aimeleque. Davi estivera ali consultando o oráculo e obtendo um pequeno suprimento de boca. É provável que tenha sido justamente nesse momento que Doegue lembrou o incidente. Ele não havia negado propositadamente a informação a Saul. Apenas não dera ao incidente a importância devida. E assim, percebendo agora a importância do incidente, revelou-o prontamente. Somente aqui é mencionado que Davi consultou o oráculo. O relato original, do capítulo 21, não fala nisso. Todavia, é possível que Doegue tenha adicionado aqui o detalhe, presumindo que tenha acontecido, quando, na realidade, Davi estava interessado somente em alimento, e não em obter orientação especial. Seja como for, Doegue também havia observado que o sumo sacerdote entregara a Davi a espada de Golias. Isso parecia uma clara indicação de que o sumo sacerdote era aliado de Davi, um participante da traição. Certamente deveria ser executado, e Saul cuidaria para que a execução fosse efetuada, e em breve.
22.11

Então o rei mandou chamar Aimeleque. Saul não se importou em ir a Nobe para investigar a questão, embora aquele lugar ficasse somente a cerca de 6,5 quilômetros de Gibeá. Antes, ordenou que toda a classe sacerdotal viesse a ele. Saul provavelmente havia removido o tabernáculo de Nobe, que segundo certas fontes havia permanecido em Gibeá por cinqüenta e sete anos (Maimônides e Bartenora, em Mishnah Zebachim, cap. 14, sec. 7). I Sam. 7.1,2 diz que o tabernáculo permaneceu em Quiriate-Jearim por vinte anos. Não é fácil reconciliar tais notícias, nem compreender o motivo pelo qual o tabernáculo fora transferido de um lugar para outro. Quiriate-Jearim ficava cerca de 16 quilômetros a oeste de Nobe. Quando Davi conquistou Jerusalém, transferiu o tabernáculo para essa cidade. Anos depois, Salomão incorporou o tabernáculo ao templo. Dessa forma, a adoração foi centralizada em Jerusalém, e o tabernáculo cessou suas perambulações. Mas, antes de descansar em Jerusalém, o tabernáculo esteve em
vários lugares. Isso é comentado no Dicionário, no artigo intitulado Tabernáculo, seção V. De Nobe (após a destruição da casta sacerdotal), o tabernáculo foi para Gibeom (I Crô. 16.39 ss.). Sem suspeitar de perigo e obedecendo à ordem do rei, o sumo sacerdote e todo o sacerdócio partiram de Nobe em direção a Gibeá.
22.12
Disse Saul. Saul queria ter certeza de que havia apanhado o homem certo, chamando-o de “filho de Aitube”. O sumo sacerdote garantiu-lhe ser o homem certo e chamou Saul de “senhor”, conforme qualquer súdito leal teria feito, a despeito de toda a confusão que Saul causara em Israel. Saul desprezou Aimeleque não o chamando pelo nome nem pelo título de sumo sacerdote. Saul estava prestes a efetuar um ato de grande vergonha, e não estava aplicando nenhuma gentileza no tocante à hospitalidade. Mas o sumo sacerdote pagou a devida honra ao rei, embora não tivesse sido honrado.
22.13
,4s Acusações. Saul não estava ali para ocupar-se de conversas polidas. Antes, bradou suas acusações contra Aimeleque: “Você é o homem que ajudou o traiçoeiro Davi. Você lhe deu suprimento de alimentos; você ajudou o exército dele; você lhe deu armas". Saul estava disposto a matar, e não aceitaria desculpas, e nenhum pronunciamento da verdade (Davi tinha enganado o sumo sacerdote) seria aceito. A ira sempre distorce ou ignora a verdade. O pior de tudo era que o sumo sacerdote havia ajudado Davi dizendo-lhe para onde ir com sua traição, na tentativa de destronar Saul. O vs. 15, que fazia parte da defesa do sumo sacerdote, não deixou claro se o sacerdote deu a Davi um oráculo e, se ele o fez, qual era o conteúdo. Mas certamente ele negou que houvesse traição envolvida na questão.
22.14
Davi é Reconhecido como Fiel Auxiliar do Rei Saul. Ele era o homem que servira supremamente a Saul e a toda a nação de Israel matando Golias, e, subseqüentemente, adquiriu elevada reputação ao matar os temidos filisteus (21.8). Nenhum homem, em todo o reino, era súdito mais leal a Saul, capaz de ser-lhe tão benéfico, como Davi. Por conseguinte, o argumento de Aimeleque insistia: Como poderia alguém suspeitar dele? Se Davi tinha cometido algum erro, o sumo sacerdote não tinha consciência disso, e o havia ajudado na ignorância, e não em conluio contra Saul. Mas foi inútil tentar alguma defesa. Saul já tinha executado o sumo sacerdote e o sacerdócio em seu coração, e em breve seu intuito seria uma realidade. Davi era genro do rei e homem de inquestionável lealdade. O sumo sacerdote ficou espantado de que alguém pusesse em dúvida essa lealdade.
22.15
O texto hebraico deste versículo tem sido variegadamente interpretado, com o resultado de que permanecemos na incerteza sobre qual foi exatamente a defesa do sumo sacerdote Aimeleque no tocante alegada consulta de Davi ao oráculo de Nobe. As várias interpretações dizem o seguinte: 1. O hebraico diz aqui, literalmente: “Comecei a consultar a Deus por ele?”. A pergunta pode ser retórica, como se dissesse: “Eu, de fato, não indaguei dele. Isso foi um mal-entendido de Doegue”. 2. Mas a palavra “começar” pode indicar que Davi, em várias ocasiões, tinha consultado o oráculo, pelo que o sumo sacerdote não tinha como saber quando, uma vez mais, Davi o fez. O sumo sacerdote pode ter dito em tantas palavras: “O que você pensa? Você acha que somente naquela ocasião dei consultas a Davi? O fato é que já fiz isso para ele diversas vezes. Portanto, nada houve de novo ou incomum acerca da consulta. Eu não podia suspeitar de algum mal no caso”. 3. Abarbanel apresenta a tradução: “Esse foi o primeiro dia em que perguntei a Deus por ele e nada fiz que fosse desagradável a ti”. Longe disso, Davi afirmou estar em uma missão especial para Saul, pelo que o sacerdote deveria dar tratamento especial a Davi, incluindo a consulta do oráculo.
22.16
Respondeu o rei. Saul se acostumara a ignorar os clamores dos inocentes, e o sumo sacerdote e seus amigos sacerdotes seriam tratados como um bando de animais, mortos sem piedade. Além disso, toda a família de Aimeleque seria morta, em consonância com o costume oriental em que a competição era eliminada, em vez de aplacada. Homens brutais não se preocupam com a justiça. Nisso, o quase extermínio da casa de Eli seria efetuado, e a linhagem sacerdotal em breve passaria para outro descendente de Arão. Ver I Sam. 3.10 ss. quanto à maldição contra a família de Eli.
1206 I SAMUEL
22.17
Guarda. Literalmente, corredores. Sua função era correr diante da carruagem real. Cf. II Sam. 15.1. Eram os auxiliares usuais de um rei no oriente. Um exemplo do valor dessas corridas é dado em I Reis 18.46. Elias correu à frente da carruagem de Acabe.
Matai os sacerdotes do Senhor. A ordem de Saul aos guardas pessoais e soldados para matar o sumo sacerdote e todo o grupo de sacerdotes do tabernáculo não foi obedecida. Isso poderia ser fatal para os soldados, mas eles estavam dispostos a correr o risco, em lugar de matar os ungidos de Yahweh. A loucura de Saul, entretanto, não foi impedida por nenhuma preocupação “teológica”. “Eles ousaram desobedecer às ordens do rei em um caso de tal injustiça, desumanidade e irreligião” (Adam Clarke, in loc.). As tradições judaicas dizem que Abner e Amasa estavam entre os corredores (guardas) (Midrash Tillim, apud Abarbanel, in loc.). Mas Kimchi corretamente observa que eles eram príncipes, e não homens que combatiam a pé.
22.18
Doegue era idumeu, provavelmente um convertido ao yahwismo, mas faltava-lhe o respeito hebreu que os outros tinham. Ele não temia o julgamento de Yahweh. Matar os sacerdotes era apenas outro ataque assassino para ele, pelo que estava ansioso para servir e agradar a Saul. De fato, Doegue gostava de matar. Ele teria um melhor dia de matança, matando oitenta e cinco sacerdotes que estavam diante dele desarmados e indefesos. Assim a degradação de Saul chegara a um ponto inacreditável. Nada mais era sagrado para ele. Ele só cuidava de manter seu poder e realizou atrocidades inimagináveis para manter por breve tempo sua autoridade, que Yahweh lhe tiraria em mero instante.
Vestiam estola sacerdotal de linho. A Septuaginta ignora a palavra “linho". Nem todo sacerdote tinha uma estola, mas eles, como sacerdotes, estavam qualificados para levar a estola do santuário de Nobe e dar respostas oraculares (ver I Sam. 14.18,19). Ver no Dicionário o artigo chamado Estola, quanto a informações completas. Os sacerdotes tinham suas próprias vestes de linho como sinal de seu ofício, mas havia a veste especial do sumo sacerdote, na qual eram guardados o Urim e o Tumim, com base nos quais eram dados oráculos. Ver no Dicionário os artigos gerais chamados Estola e Sacerdotes, Vestimentas de. A Septuaginta e Josefo falam sobre o número de sacerdotes mortos como 305 e 385, respectivamente, e Josefo fala sobre a ajuda que Doegue obteve da parte de homens ímpios, iguais a ele. A matança não acabou com a casta sacerdotal, conforme nos informa o versículo seguinte. Ver Josefo (Antiq. 1.6, cap. 12).
22.19
Passou ao fio da espada. A Atrocidade. Em um ataque de fúria, Saul ordenou e provavelmente também executou pessoalmente a matança dos cidadãos de Nobe, que não pertenciam à casta sacerdotal e nada tinham que ver com o incidente que envolveu Davi. Saul, pois, efetuou guerra santa contra sua própria gente, não poupando nem mulheres nem infantes, e obliterou toda vida animal, não poupando absolutamente nada. Essas eram as demandas da guerra santa sobre as quais comento em Deu. 7.1-5 e 20.10-18.
Enquanto a humanidade continuar a prestar mais louvores a seus destruidores do que a seus benfeitores, a guerra permanecerá como busca principal das mentes ambiciosas.
(Edward Gibbon, na obra Declínio e Queda do Império Romano)
Nas artes da vida, o homem nada inventa. Mas na arte da morte ele ultrapassa a própria natureza.
(George Bernard Shaw)
“O mau gênio de Saul levou-o a um final ato desastroso de injustiça, mediante o qual perdeu o apoio dos sacerdotes. A partir dali, um curto passo levaria à queda final" (John C. Schroeder, in loc.). Os filisteus haviam perpetuado uma atrocidade relativamente pequena contra os sacerdotes do tabernáculo em Silo. Mas agora vemos o próprio rei de Israel efetuando atrocidade maior novamente contra o tabernáculo que tinha permanecido em Nobe. Quanto aos vários lugares onde o tabernáculo fora localizado antes de descansar em Jerusalém, ver Tabernáculo, no Dicionário, seção V. De Nobe, o tabernáculo foi transferido para Gibeom (ver I Crô. 16.39 ss.).
22.20
Um só. Um único filho do sumo sacerdote, Abiatar, escapou da matança e procurou Davi para contar-lhe sobre o desastre de Nobe. Ver no Dicionário quanto a Abiatar, para detalhes. Ele conseguiu levar a estola sacerdotal, de acordo com I Sam. 23.6,9, e isso tomou-o candidato a ser o próximo sumo sacerdote. Mas até mesmo ele seria finalmente substituído, por causa da maldição contra a casa de Eli (ver I Sam. 3.10 ss.). Salomão, filho de Davi, removeu-o do oficio e mandou-o para o exílio (ver 1 Reis 2.26 e 27). Isso pôs fim à casa de Eli no sumo sacerdócio. A linhagem passou para Zadoque, que era descendente de Eli por outra linhagem. Abiatar sempre foi fiel a Davi, mas a política o lançou em desfavor diante de Salomão. Provavelmente Abiatar escapou porque foi deixado no tabernáculo em Nobe e, quando a matança espalhou-se daquele lugar para Gibeá, teve tempo de fugir, levando as vestes do sumo sacerdote. Podemos estar certos de que ninguém sobreviveu em Gibeá.
22.21
E lhe anunciou que Saul tinha matado os sacerdotes do Senhor. Abiatar foi o portador da amarga mensagem, ou seja, a incrível matança da casta sacerdotal e de todos os habitantes de Nobe. “Sua mensagem foi triste e chocante” (John Gill, in loc.).
22.22
Davi havia antecipado alguma desgraça da parte do idumeu, Doegue, e culpou a si mesmo por ter causado a morte dos sacerdotes. Agora, pois, reconheceu que seria melhor ter evitado Nobe. Ele poderia ter conseguido alimentos e armas em algum outro lugar. Ele tinha tomado o curso mais fácil. Assim, o curso fácil com freqüência toma-se o mais caro, afinal. Mas Davi dificilmente poderia ter antecipado até que ponto de degradação Saul se rebaixara. Foi assim que Davi se tornou a “causa inocente” (Adam Clarke) do que aconteceu em Nobe. O Talmude diz que, muito antes desse tempo, já se tinha criado forte desconfiança entre Davi e Doegue. É provável que já fazia tempo que Doegue competisse com Davi pelo favor do rei. O Talmude faz do jovem que acompanhava Saul desde o começo (capítulo 9), bem como do servo de I Sam. 16.18, Doegue. Ele pode ter louvado Davi e buscado sua ajuda para aliviar a loucura de Saul com a música, mas Iodos os seus louvores a Davi, em I Sam. 16.18, tinham um objetivo malicioso” (conforme o Sanhedrin, foi. 93, col. 2).
Da casa de teu pai. Nem todos os sacerdotes de Nobe pertenciam à casa de Aimeleque, embora todos descendessem de Arão. O autor sagrado, pois, falou com certa inexatidão.
22.23
Companheiros no Exílio. Davi e Abiatar ficariam juntos, e juntos enfrentariam a ira de Saul. Davi prometeu a esse homem o seu apoio, e em breve o reconheceria e o empregaria como sumo sacerdote. Ver as notas expositivas sobre o vs, 20. Davi defenderia o novo sumo sacerdote com a própria vida, parcialmente por causa de seu erro ao provocar a ira de Saul contra a casta sacerdotal em Nobe. Além disso, era nele que a vontade de Yahweh continuaria a ser revelada, e isso Davi precisava defender. Alguns estudiosos sugerem que nesse ponto da história Davi compôs o Salmo 52. Capítulo Vinte e Três
Davi Defende Queila (23.1-13)
Davi, mediante iluminação direta de Yahweh, arriscou a própria vida ao aventurar-se para fora do exílio e atacar os filisteus que assediavam Queila. Essa foi a orientação dada pelo novo sumo sacerdote, Abiatar, a Davi, que em breve seria o segundo rei de Israel. Os filisteus estavam à cata dos armazéns de cereais da cidade e trouxeram animais para carregar o cereal (vs. 5). Queila ficava a somente 5,5 quilômetros de Adulão. Logo, em termos de distância, a tarefa de Davi era fácil. Mas essa era a única coisa em seu favor, exceto, naturalmente, a ajuda divina que salvou o dia. A presença de Abiatar com Davi (I Sam. 22.23) assinalou o começo do poder sacerdotal de Davi, e o capítulo 23 registra o primeiro uso desse poder. O vs. 6 cita nominalmente o sumo sacerdote e faz dele a fonte da iluminação necessária. “Apesar de estar fugindo de Saul, Davi fez mais do que permanecer oculto. Ele também combateu contra os sempre ameaçadores filisteus” (Eugene M. Merrill, in loc.).
23.1
Eis que os filisteus pelejam contra Queila. Ver no Dicionário o artigo sobre Queila. O local antigo é assinalado pela moderna Khirbet Quilã, a cerca de 5,5
I SAMUEL 1207
quilômetros de Adulão. A distância entre o quartel-general de Davi e aquele lugar era pequena, pelo menos um fator favorável. Davi apenas não sabia se tinha forças suficientes para resistir às hostes filistéias com um grupo de 600 homens (ver 23.13). Para tanto, precisava de iluminação especial da parte de Yahweh, algo possibilitado pela presença do novo sumo sacerdote, Abiatar (ver o vs. 6). Furtar cereal das eiras de Israel era uma prática antiga dos vizinhos de Israel. Ver Juí 6.4. “Quando o grão estava maduro para ser colhido e submetido ao padejamento, era reunido nas eiras que sempre havia em campo aberto. Portanto, era fácil para os adversários vir e levar a colheita” (Adam Clarke, in loc.).
23.2
Consultou Davi ao Senhor. Algumas vezes torna-se mister a iluminação divina para o cumprimento apropriado dos projetos. Davi enfrentava um dilema. Estava próximo, mas relativamente fraco. E não possuía muitas armas. Ele e seus soldados poderiam ser todos mortos. Foi por isso que Davi consultou o oráculo, através do novo sumo sacerdote, Abiatar (vs. 6). Este tinha trazido as vestes sagradas, inclusive a estola e o Urim e o Tumim (ver o vs. 6), proporcionando as condições necessárias para a consulta. Talvez isso tenha sido feito mediante o lançamento das sortes. Ver no Dicionário os artigos chamados Sortes e Urim e Tumim. Seja como for, o resultado foi positivo: “Vai, luta. A vitória será tua”. Temos aqui uma “instância rara de heroísmo desinteressado” (Adam Clarke, in loc.). Isso porque Davi nada tinha que ganhar pessoalmente através desse ato. De fato, porém, ele ganhou, porque trouxe muito despojo da batalha. Mas ele não tinha ido com esse propósito. É possível que Davi tenha feito essa inquirição através do profeta Gade (ver I Sam. 22.5), e não através de Abiatar. A presença dos dois homens com Davi garantia correta orientação.
23.3
Os Homens de Davi Estavam Temerosos. E com toda a razão. Somente uma intervenção divina poderia dar-lhes a vitória naquele dia. Eles temiam estar em Judá, o território de Israel, por causa de Saul. Quanto mais se avançassem ao encontro dos filisteus na fronteira! Ao que tudo indica, Queila ficava dentro das fronteiras de Judá, mas tão perto do território filisteus que todos corriam grande perigo. Ademais, os filisteus sem dúvida controlavam toda aquela área e eram, para todos os efeitos práticos, um exército de ocupação.
23.4
Dispõe-te, desce a Queila. O grande temor dos homens tornou Davi cauteloso e fê-lo consultar novamente o oráculo, para certificar-se de que receberia a resposta correta. Yahweh mostrou-se paciente com a hesitação de Davi, e deu- lhe a mesma resposta da primeira consulta, isto é, a certeza de vitória. Isso satisfez não somente o próprio Davi, mas igualmente seus homens. E assim as coisas logo foram postas em movimento para o ataque. A iluminação divina provê entusiasmo e confiança para efetuarmos tarefas difíceis. E todos nós, ocasionalmente, carecemos dessa espécie de assistência divina. Oh, Senhor, concede-nos tal graça! Apesar do benefício de ler a Bíblia e orar, algumas vezes precisamos do toque místico do Espírito de Deus. E isso também faz parte do nosso desenvolvimento espiritual. Ver no Dicionário o verbete chamado Desenvolvimento Espiritual, Meios de.
23.5
Partiu Davi com seus homens a Queila. O sucesso não foi fácil, mas estava garantido. Os temidos filisteus foram obliterados. Seus bens e seu gado acabaram passando para as mãos de Davi, e ele precisava daquelas provisões para seu pequeno exército. Portanto, a vitória deu a Davi a satisfação de ter salvado uma cidade dos filisteus atacantes e ter tirado benefício para si próprio e para seus homens. Isso significa que ele foi fortalecido para buscar outras vitórias.
Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo, sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra.
(II Coríntios 9.8)
23.6
Ao que parece, este versículo foi inserido para nos informar três coisas: 1. Que Davi foi capaz de consultar o oráculo e assim obter a iluminação divina para a vitória em Queila; 2. Que a Davi fora dado um sumo sacerdote, Abiatar, sobrevivente do massacre dos sacerdotes em Nobe (22.20). Desse modo, um culto religioso apropriado passou para Davi e abandonou o selvagem Saul.
Quando Davi se tornou o segundo rei de Israel, Abiatar tornou-se sumo sacerdote em Jerusalém. Salomão, porém, por razões políticas, acabou por removê- lo. Ver no Dicionário sobre Abiatar, quanto aos detalhes. 3. O equipamento apropriado a ser usado pelo sumo sacerdote fora trazido de Nobe por Abiatar. Davi não pôde colocar as mãos nesse equipamento, pelo que, qualquer sacerdote substituto que pudesse ter levado não estaria equipado com os instrumentos sagrados e ungido para uso, pela autoridade de Yahweh. Davi poderia consultar Yahweh através de Gade, o profeta (22.5), mas o modo normal seria através do sumo sacerdote. Ver no Dicionário o artigo chamado Estola.
23.7

Foi anunciado a Saul que Davi tinha ido a Queila. Fazia tempo que Saul caçava Davi, mas Davi sabia ocultar-se. Ele tinha seus esconderijos e sua fortaleza privada em Adulão (22.1). Por isso Saul se deleitou com o fato de Davi ter “saído a campo aberto”. Quando Saul ouviu que Davi estava em uma posição vulnerável, em Queila, imediatamente lançou de Gibeá um ataque. Os dois lugares estavam separados por apenas 32 quilômetros, de modo que o ataque foi facilitado. Note-se o admirável detalhe: Saul deu a Elohim o crédito por ter trazido Davi a campo aberto, onde poderia atacá-lo! Homens auto-iludidos estão realmente enganados! Ele supôs que Davi tivesse sido reprovado por Deus, meramente por ser seu próprio inimigo. É fácil lançar a culpa das coisas a Deus, quando nossa própria espiritualidade está degradada.
23.8
Saul mandou chamar todo o povo à peleja. Podemos ter certeza de que Saul reuniu um exército imenso. Ele não queria arriscar-se com Davi, homem cheio de truques. Como rei, Saul tinha direito de forçar os homens a lutar, quisessem eles ou não fazê-lo. Davi, em contraste, dependia de seu pequeno exército voluntário.
23.9
Sabedor, porém, Davi. Davi também foi informado das intenções e dos movimentos de Saul. Portanto, Davi tornou a consultar o oráculo. A menção aqui à estola e a Abiatar mostra-nos que ele usou os meios normais ou as sortes sagradas (ver no Dicionário) ou o Urim e o Tumim (ver também no Dicionário). Isso subentende que sua consulta anterior também foi feita desse modo. É possível que Jônatas, em seu grande e contínuo amor por Deus, tivesse encontrado algum mensageiro para manter Davi informado sobre os movimentos de Saul.
23.10
Orou Davi. Saul vinha a caminho para destruir a cidade de Queila, juntamente com Davi e seus homens, a menos que eles cooperassem entregando Davi. Sua brutalidade não permitiria piedade. Com base nas experiências passadas, Davi sabia que a cidade corria perigo de ser obliterada e suspeitou (corretamente) que seus habitantes não tentariam combater Saul. Primeiro, seria inútil resistir. Além disso, eles prefeririam sobreviver a ver Davi sobreviver.
23.11,12
Estes dois versículos respondem a duas perguntas críticas que Davi tinha feito: 1. Descerá Saul conforme fui informado? 2. Se ele descer mesmo, os habitantes da cidade me entregarão à morte? E o oráculo respondeu afirmativamente a ambas as perguntas. “Saul está a caminho, e tu serás um homem morto se permaneceres aqui”. O oráculo só podia responder a uma pergunta por vez, pois dizia “sim” ou “não” a cada pergunta. Foi por isso que Davi perguntou primeiro sobre a descida de Saul. “Sim, ele descerá”. Então a segunda pergunta: “A cidade me entregará a ele?”. “Sim, eles te entregarão." Os intérpretes queixam-se aqui sobre a deslealdade da cidade ao herói que acabara de livrá-la dos filisteus. Por outra parte, os homens farão (quase) qualquer coisa para sobreviver. A cidade não haveria de querer sacrificar-se, com seus homens, mulheres e crianças, diante do exército de Saul, apenas para salvar Davi e seu pequeno bando. Fugir era, definitivamente, a ordem do dia.
23.13
Então se dispôs Davi com os seus homens. O bando de homens que acompanhava Davi havia crescido. Ele começou com cerca de 400 homens (ver I Sam. 22.2), mas tinha 600 homens em Queila. Esse aumento, contudo, não era suficiente para enfrentar Saul e seus loucos matadores. Davi simplesmente abandonou a cidade. Ele não tinha mais nenhum negócio ali. Por algum tempo havia desfrutado as conveniências da vida em uma cidade, mas agora precisava voltar ao deserto. Seu tempo ainda não havia chegado. Ele precisava continuar no exílio. Ele se assemelhava a Moisés, que ficou no deserto por quarenta anos. O
1208 I SAMUEL
dia de Davi chegaria. É quase impossível abrir portas antes do tempo. Portanto, paciência!
Ensina-me a resistir aos conflitos da alma, A verificar a dúvida que sobe, a visão rebelde; Ensina-me a paciência da oração não respondida.
(George Croly)
23.14
Davi ficou perambulando pelos arredores com astúcia. Uma montanha no deserto de Zife proveu-lhe bom esconderijo. Ver no Dicionário o artigo chamado Zife, Zifitas, quarto ponto. Posteriormente, nessa mesma região, Davi apossou-se da lança e da botija de água de Saul, mas lhe poupou a vida (I Sam. 26.1,2,7,12). Durante longo tempo, Saul continuou envidando esforços para localizar Davi e despachá-lo, mas Davi sempre escapava. “Embora Saul estivesse armado com todo o poder de rei de Israel, ele se mostrava impotente, porquanto o Rei invisível declinava de entregar o odiado Davi em suas mãos” (Ellicott, in loc.).
23.15
Vendo, pois, Davi. Ao que tudo indica, Davi sempre esteve ciente de todos os movimentos de Saul e suas tropas, no deserto de Zife, e foi capaz de evitar o contato direto, que seria fatal. Talvez Jônatas lhe enviasse informações, ou a providência divina, sem nenhuma ajuda humana, simplesmente mantinha Davi fora de contato com Saul. Ver no Dicionário o artigo chamado Providência de Deus. No tempo de Davi, a Palestina possuía muito mais árvores que hoje. Não restam florestas na região de Zife, mas isso não nos surpreende. Séculos obliteraram qualquer sinal de floresta natural. A maioria das árvores da Palestina foi destruída pela estupidez humana. “... o grande homem foi obrigado a mudar-se constantemente, por motivo de segurança” (John Gill, in loc.).
23.16
E lhe fortaleceu a confiança em Deus. Em I Sam. 20.41,42 lemos sobre a despedida chorosa dos dois amigos especiais, Davi e Jônatas. Poderíamos pensar que eles nunca mais se encontrariam. Os críticos, por sua vez, crêem que a passagem aqui em vista não é histórica, mas baseada em sentimentos, e que o capítulo 20 registrou mesmo uma despedida definitiva. Por outra parte, não seria impossível para Jônatas encontrar pelo menos uma ocasião para visitar o amigo. E as Escrituras, de fato, relatam apenas um desses acontecimentos. Assim Davi e Jônatas, que eram dois corpos e uma só alma, puderam estar juntos mais uma vez, antes da morte de Jônatas em campo de batalha (capítulo 31). O propósito de Jônatas, nessa visita, era fortalecer Davi. Algumas versões portuguesas dão aqui a expressão “fortaleceu sua mão”. Mas nossa versão diz ‘lortaieceu-lhe a confiança em Deus”. Palavras de consolo foram proferidas. Jônatas encorajou Davi a suportar o exílio com coragem e denodo.
23.17
Tu reinarás em Israel. Jônatas percebia claramente que Davi, e não ele mesmo, seria o segundo rei de Israel. Neste ponto, já tão perto da própria morte, Jônatas expressou o desejo de ver isso cumprido. Se permanecesse vivo, segundo Jônatas ainda expressou, ele seria o segundo homem depois de Davi — “eu serei contigo o segundo”. A amizade deles seria renovada na casa real de Davi, e Jônatas estaria presente para servir a Davi. Mas isso nunca aconteceu. A morte eliminou Jônatas, mas nem por isso uma amizade sincera se perdeu. No outro lado da porta de Deus, à qual chamamos de “morte”, os antigos amigos se reúnem. Ver as notas sobre tais questões, em I Sam. 20.40,41. Saul sabia que essa amizade era impossível de ser quebrada. E também sabia que Jônatas seria um elevado oficial na corte de Davi. Seu ódio não fora capaz de destruir esse laço de amor.
Os estóicos definem o amor como o esforço para formar uma amizade inspirada pela beleza.
(Cícero)
O amor concede em um momento o que a labuta dificilmente pode alcançar em uma era.
(Goethe)
O conhecimento de Saul sem dúvida incluía o fato de que Samuel ungira Davi como o próximo rei (ver o capítulo 16). Saul sabia disso, mas não queria acreditar que Davi, finalmente, o substituiria.
23.18
E ambos fizeram aliança perante o Senhor. Sem dúvida, uma repetição e confirmação da primeira aliança, sobre a qual lemos em I Sam. 20.14-16,42. Kimchi e Abarbanel supõem que a expressão “perante o Senhor” implique que o pacto foi renovado na presença do sumo sacerdote Abiatar, e com a sua bênção. Jerõnímo ajuntou que o profeta Gade também foi testemunha dessa aliança (Trad. Heb., in lib. Reg. foi. 76K). Mas suponho que a última reunião entre Davi e Jônatas tenha sido uma questão sagrada e privada, testemunhada somente por Yahweh, e que seja esse o significado de “perante o Senhor”.
23.19
Então subiram os zifeus a Saul. Ver no Dicionário o artigo chamado Zife, Zifitas, quanto ao que se sabe sobre esse povo e a área onde eles viviam. Eles não gostavam de Davi e seus homens percorrendo o território, por razões não informadas pelo autor sacro. É provável que Davi tenha exigido provisões dos habitantes ou de outras formas os tivesse pressionado. Ou talvez eles quisessem simplesmente agradar Saul e obter vantagens, traindo Davi e entregando-o a Saul para que fosse executado, Cf. o capítulo 25, onde vemos Davi requerendo ajuda para o sustento pessoal e de seu pequeno exército. O deserto de Zife é um platô rochoso ao sul de Hebrom. Existem ali muitas cavernas de pedras calcárias, nas quais um bom número de homens poderia esconder-se, quase indefinidamente. Assim Davi e seus homens estavam em relativa segurança, mas os zifitas cansaram-se de tê-los por perto. Além disso, Saul poderia mostrar-se bárbaro o suficiente para vingar-se deles somente porque Davi se escondera naquela área. Certamente os zifeus não agiram por amor ao selvagem Saul.
Haquilá... Jesimom. Ver sobre esses dois lugares anotados no Dicionário.
23.20
Desce conforme te Impõe o coração. A Conspiração. Os exércitos de Saul obteriam dos zifeus informações sobre onde Davi se ocultava. E eles facilitariam sua captura e execução. Os zifeus tinham a informação, e Saul tinha o poder, de modo que, juntos, representavam o fim de Davi. Isso eles fariam por vantagens mútuas. Talvez até a captura real de Davi fosse entregue aos cuidados dos zifeus. O pequeno exército de Davi sem dúvida se dispersaria se o capitão fosse morto, e a rebeldia crescente seria ceifada antes que pudesse crescer ainda mais.
23.21
Uma Incrível Cegueira. Cf. com o vs. 7 deste mesmo capítulo. Em ambos os versículos vemos a incrível cegueira de Saul. Ele deu a Yahweh-Elohim crédito pelas oportunidades de matar Davi. O autoludíbrio é capaz de realizações deveras estranhas. Saul chegou a considerar um ato de compaixão o fato de que os zifeus quisessem ajudá-lo a livrar-se de seu inimigo, e podemos estar certos de que, se isso tivesse mesmo acontecido, os zifeus teriam sido abençoados com posse materiais em nome de Yahweh! Ver também o vs. 8. Saul sentia-se triste por si mesmo, supondo que todos, até os mais íntimos assistentes, “conspiravam” contra ele.
Nunca somos enganados. Enganamos a nós mesmos.
(Goethe)
23.22
Informai-vos ainda melhor. Davi era homem astucioso e sempre conseguia escapar às armadilhas de Saul. Este recomendou que os zifeus agissem astuciosamente com Davi, observassem o lugar onde ele se escondia, e o capturassem por meio de um golpe sagaz. Saul cria que Deus os ajudaria nessa captura. Saul já havia enviado grupos de busca antes, sem resultados positivos. Davi mostrara-se mais astuto que eles. Sua sobrevivência dependia dessa astúcia. Saul já havia recebido grandes evidências dessa qualidade de Davi e advertiu os zifeus a ser tão astuciosos quanto Davi, se quisessem capturá-lo.
23.23
Informai-vos acerca de todos os esconderijos. A primeira tarefa dos zifeus seria procurar os esconderijos de Davi. A segunda seria informar Saul, para que este descesse em segredo e surpreendesse Davi. Embora Judá tivesse milhares de habitantes, se o jogo fosse jogado com esperteza, a localização exata de Davi e seus homens poderia ser exatamente determinada. Portanto, o que poderia parecer uma tarefa impossível seria concretizado com um pouco de planejamento, e Davi não mais poderia ocultar-se entre os milhares de judaítas. Núm. 1.16 e 10.4 infor
I SAMUEL 1209
mam-nos que Judá era uma tribo muito populosa. As tribos eram enumeradas aos milhares, o que explica a expressão aqui usada, “entre todos os milhares de Judá”. Ver Núm. 1.2 quanto ao recenseamento, que mostra que Judá era a tribo mais numerosa.
23.24
Então se levantaram eles. Os zifeus partiram para cumprir as ordens de Saul. Davi foi localizado ao sul de Jesimom e não demoraria a ser detectado.
Deserto de Maom. Ver sobre este local no Dicionário. Ficava na região montanhosa de Judá (ver Jos. 15.55) e tem sido identificado com a moderna Tell Ma”in, ao sul de Zife.
23.25
E isto foi dito a Davi. Não sabemos como Davi foi informado sobre os movimentos de Saul. Sem dúvida havia traidores entre os homens de Saul, os quais mantinham Davi bem informado sobre as ações de Saul. O fato, porém, foi que Davi fugiu para certa área rochosa em Maom, provavelmente um lugar de cavernas, e ali se ocultou. Seus homens o acompanharam, como deixa claro o vs. 26. “Ele escapou para o deserto de Maom, 16 quilômetros a sudeste de Hebrom. Saul, contudo, perseguiu-o até ali, mas foi temporariamente chamado de volta para defender Israel de outro ataque desfechado pelos filisteus (vss. 27 e 28). Isso deu a Davi a oportunidade de ir a En-Gedi (vs. 29), um oásis 16 quilômetros ao norte da Massada do mar Morto” (Eugene M. Merrill, in loc.). Assim os passos de Davi foram encaminhados pelo Senhor, para que ele cumprisse o seu destino.
Devedor à tua graça Cada dia e hora sou.
(Robert Robinson)
23.26,27
Saul ia duma banda do monte, e Davi e os seus homens da outra. Uma pequena distância separava os homens de Saul dos homens de Davi. Nessa oportunidade, Saul quase conseguiu apanhar Davi. Este passou momentos de aguda ansiedade. O exército de Saul por pouco não cercou o pequeno exército de Davi, o que lhe teria cortado qualquer possibilidade de escape. “Saul virtualmente o apanhou no deserto de Maom, quando chegaram notícias de um ataque dos filisteus contra Israel (vs. 27), o que deu a Davi oportunidade de escapai"’ (John C. Schroeder, in loc.). O monte onde Davi se tinha refugiado de súbito foi cercado pelo exército de Saul. Somente uma intervenção divina poderia salvar Davi. Os filisteus, porém, fizeram um ataque contra Israel, e isso proveu a ajuda divina necessária para a ocasião. Os filisteus imediatamente tiraram proveito da retirada de Saul para o sul, para lançarem um ataque de surpresa. Ver no Dicionário o artigo chamado Providência de Deus. As tradições judaicas dizem que o anjo do Senhor estava envolvido no caso, manipulando as coisas e protegendo Davi do quase sucesso de Saul (Midrash apud Yalkut, in loc.).
23.28
Saul desistiu de perseguir Davi. Resolvendo ocupar-se de uma tarefa mais urgente, Saul fez o que já era esperado e foi enfrentar os filisteus. Seu caso com Davi poderia esperar. Ele teria outras oportunidades para seu golpe traiçoeiro. As circunstâncias fizeram o lugar onde Davi escapara ser chamado de Pedra de Escape (no hebraico, Selá-Hamalecote). Mas o significado dessas palavras também pode ser “colina das divisões", isto é, o lugar pedregoso onde, pela providência de Deus, as forças de Saul se separaram das de Davi. Nenhum ponto específico foi identificado com esse lugar, embora a área geral seja conhecida. Ficava na área rochosa geral de Maom. Os Targuns dão-nos uma possível explicação: “... o coração do rei ficou dividido entre ir para cá ou para lá”. O ataque de surpresa desfechado pelos filisteus dividiu o coração de Saul entre o que ele tinha de fazer ali mesmo e enfrentar o inimigo. Mas ele foi obrigado deixar a tarefa nefanda de perseguir Davi para enfrentar a tarefa mais urgente. Se entendermos uma derivação diferente, a palavra hebraica também significa “suavidade”, dando a idéia de “escorregar para longe”, ou seja, escapar.
23.29
Ficou nos lugares seguros de En-Gedi. Davi e seus homens abandonaram o lugar, que não era mais seguro para eles. E foram-se para En-Gedi (ver a respeito no Dicionário). Esse nome significa “fonte do cabrito”. Atualmente chama- se “Ain Jidi”. Situava-se na rampa íngreme da parte oeste do mar Morto, que se elevava cerca de 180 metros acima daquele corpo de água. O lugar tornou-se
célebre por suas vinhas (Can. 1.14), bem como por seu bálsamo usado para propósitos de cura. É uma área repleta de cavernas e, portanto, um ótimo lugar para Davi e seu pequeno exército. Saul haveria de retornar. Em En-Gedi, Davi continuava no território da tribo de Judá. Alguns estudiosos crêem que foi ali que Davi compôs o Salmo 63. Cf. Jos. 15.62. Capítulo Vinte e Quatro
Este capítulo não forma uma divisão separada do livro, mas apenas prossegue com a história terminada em I Sam. 23.25. Saul foi temporariamente chamado da perseguição contra Davi, mediante um ataque de surpresa da parte dos filisteus. Mas, quando se viu livre dos filisteus, voltou à nefanda tarefa de perseguir Davi, com o intuito de executá-lo e assim livrar-se de um rival ao trono. Somente a morte poderia deter a loucura de Saul, e, por isso, ele precisava morrer.
Dupla Narrativa. De acordo com os críticos, os capítulos 24 e 26 são duas narrativas (apresentadas por diferentes autores ou editores), de um único acontecimento. Eles supõem que o capítulo 26 seja mais antigo e mais digno de confiança, historicamente falando. Ver as notas em I Sam. 26.1 quanto às similaridades entre as duas histórias, e a introdução a esse mesmo capítulo, quanto a outras idéias. Saul demonstrou empenho em apanhar Davi com uma tropa de 3.000 homens. Foi uma providência desesperada.
24.1
Eis que Davi está no deserto de En-Gedi. Saul tinha cuidado rapidamente da questão do ataque filisteu. “Provavelmente se tratava apenas de um pequeno ataque de saqueadores, que fizera uma excursão na fronteira de Israel, invasão que foi rapidamente suprimida” (Adam Clarke, in loc.). Desse modo, Saul logo estava livre para continuar sua incansável perseguição contra Davi, sem dar-lhe um momento de paz.
24.2,3
Tomou então Saul três mil homens. Isso demonstra a firmeza de propósito de Saul. Ele seria capaz de cumprir a tarefa com um número muito menor de guerreiros. Mas ele confiava na superioridade numérica para apanhar o astucioso Davi. Seu quase “acerto” em Maom encorajava-o a continuar a tentativa em En- Gedi.
Nas faldas das pedras das cabras monteses. Nossa versão portuguesa, uma vez mais, concorda com a Revised Standard Version, que aponta para um lugar chamado de “pedras das cabras monteses”. “Esse lugar ainda não foi identificado, mas o íbex continua abundante por toda aquela região. Provavelmente as cabras se abrigavam em cavernas que tinham uma espécie de parede na frente para proteger os animais das condições atmosféricas. Os pastores traziam até ali os rabanhos à noite, em busca de proteção contra as feras do deserto, e eles mesmos se deitavam atravessando a entrada (quanto ao eufemismo, ver Juí. 3.24)” (George B. Caird, in loc.). Conforme determinou o destino, Saul novamente chegou bem perto de Davi, tendo-se abrigado na mesma caverna em que estavam Davi e alguns de seus homens, só que em outra parte.
Entrou nela Saul, a aliviar o ventre. Uma tradução mais direta do hebraico diz “para cobrir os pés”. Essa tradução corresponde a uma expressão tipicamente portuguesa. Os povos orientais costumavam usar vestes longas e esvoaçantes. Quando tinham de aliviar o ventre, eles enrolavam essas vestes em torno do corpo para que nenhuma parte ficasse exposta. Por isso, dizia-se em hebraico “cobrir os pés”, isto é, uma parte do todo. Não somente eram cobertos os pés, mas também todo o resto do corpo. O texto deixa-nos entender que Saul, depois de ter feito suas necessidades, deitou-se para descansar. Foi assim que ele dormiu e ficou vulnerável a qualquer ataque. As versões siríaca e árabe dizem-nos especificamente que ele dormiu. Saul era observado por alguns homens de Davi. Não é necessário supor que todos os 600 homens de Davi estivessem abrigados em uma só caverna, conforme pensam alguns intérpretes.
24.4

Levantou-se Davi, e... cortou a orla do manto de Saul. Yahweh recebeu o crédito pelas circunstâncias daquele dia. Ali estava Saul a dormir, juntamente com alguns de seus homens. Qualquer guerreiro teria tirado vantagem da situação para despachar seu inimigo perseguidor e assassino, e Davi foi exortado a fazêlo, em reconhecimento à misericórdia de Yahweh, que o entregara em suas mãos, para livrá-lo de seu exílio e de seus sofrimentos.
1210 I SAMUEL

Mas Davi pensava de forma diferente e meramente cortou um pedaço da orla do manto ou veste externa do rei. Isso foi feito para transmitir uma mensagem a Saul: “ Saul, eu estive aqui. Tu me tens perseguido durante todo esse tempo e tens tentado matar-me. Eu tive a oportunidade de matar-te, mas não o fiz por temer Yahweh, visto que és o rei de Israel, o ungidd’. Ele esperava que isso fosse suficiente para alterar a mente doentia do rei, o qual abandonaria seu louco propósito. Assim, de fato, aconteceu. Mas apenas por breve tempo. Não havia cura para o homem influenciado pelo demônio. A promessa de cuidado divino especial e proteção provavelmente reflete textos como I Sam. 15.28 e 16.1,22. Davi estava destinado a ser rei. Ele não podia ser morto, e os que se levantassem contra ele naturalmente deveriam ser eliminados, para que operasse a promessa divina.
24.5 .
Depois sentiu Davi bater-lhe o coração. Talvez essas palavras indiquem que Davi se aproximou de Saul com a finalidade de matá-lo, mas mudou de idéia. Então seu coração se suavizou tanto que ele se arrependeu de ter ousadamente cortado um pedaço das vestes de Saul. O texto demonstra o imenso respeito que Davi tinha pelas instituições de Israel, que eram consideradas como impostas e dirigidas pelo próprio Yahweh, ou seja, eram divinas. Saul fora ungido rei pelo profeta de Yahweh, Samuel, e isso era muito importante para Davi. Por isso, Davi viu com horror que havia cortado um pedaço das vestes de Saul, tão sensível era ele para com as coisas do Senhor. “Não há que duvidar que uma das mais belas características da natureza multífacetada de Davi foi sua permanente lealdade a Saul e à casa de Saul. Nem a inveja nem as amargas injúrias poderiam afetar aquele afeto... Anos mais tarde, estando Saul já no túmulo, Davi deu as mais conspícuas provas de sua amizade, quando perdoou Mefibosete, neto de Saul, por sua suspeita traição na revolta causada por Absalão, tendo-lhe devolvido larga porção de suas terras perdidas (II Sam. 19.24-29)” (Ellicott, in loc.).
24.6
O Senhor me guarde de que eu faça tal cousa ao meu senhor. Yahweh era o dono da vida de Davi, e seu coração acusou-o desse ato, porquanto Davi pensou que aquele poderia ser um ato ofensivo à Mente Divina, que tinha colocado Saul naquela posição. “Davi temeu que Saul tomasse isso, embora fosse um sinal claro de sua magnanimidade, sob um ângulo mau, considerando-o uma violação da majestade real” (Clericus, in loc.). Até mesmo alguns rabinos comentam desfavoravelmente este texto, criticando Davi por seu ato; e, com suas críticas, ensinam a intensa reverência com que os líderes e mestres deveriam ser considerados em Israel. Eles pensam que tais atos deveriam ser punidos por Deus, mais cedo ou mais tarde. Por trás desse raciocínio, naturalmente, está a idéia de que Yahweh é aquele que coloca homens em posição de poder, e só Ele pode derrubá-los dentre a comunidade dos justos. E o instrumento usado por Yahweh para pôr fim à carreira de Saul foram os filisteus.
24.7
Davi conteve os seus homens. Se Davi não quis despachar Saul, muitos de seus homens estavam ansiosos por fazê-lo. Eles não tinham o coração suave e meigo nem respeito por aquele réprobo, ainda que Samuel o tivesse ungido como rei. Davi, entretanto, não permitiu que ninguém se aproximasse de Saul, sem dúvida para consternação de muitos.
Os reis são supremos sobre seus súditos; Jove é supremo sobre os reis.
(Horácio, Odar, lib. iii)
O direito divino dos reis é ensinado em Romanos 13 e tem sido uma doutrina muito forte na história. “Era considerado coisa terrível matar um rei” (Adam Clarke, in loc.). Ver na Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia o artigo intitulado Reis, Direito Divino dos, quanto à história dessa idéia e comentários pertinentes.
24.8
Davi se levantou e, saindo da caverna, gritou. A cena seguinte no texto sacro apanha-nos completamente de surpresa. O grande guerreiro Davi, que tão facilmente despachara o gigante Golias, é agora retratado a pleitear inocência diante do louco Saul. Davi chegou a chorar diante de Saul, ali à distância, chamando-se de uma pulga e de um cachorro morto. Ele era tão insignificante que Saul estava gastando tempo em persegui-lo. Saul olhou para trás e viu o grande Davi, prostrado de rosto em terra, fazendo seu apelo comovente. A cena tocou Saul que, pelo momento, desistiu de seu intento de perseguir e assassinar Davi. Mas o louco haveria de voltar. “Davi prostrou-se rosto em terra, prestando reve
rência e honrarias a ele como um rei. Ver sobre 20.41” (John Gill, in loc.). Isso é totalmente estranho para a mente moderna, condicionada como está pelas instituições democráticas.
24.9
Por que dás tu ouvidos às palavras dos homens...? Em sua atitude incrivelmente generosa e ingênua, Davi atribuiu os maus desígnios e atos de Saul a maus conselheiros. Ou então Davi falou inspirado por caridade, a fim de agradar Saul e dar-lhe o benefício da dúvida. “Davi, com sua usual infalível generosidade, atribuiu a culpa da conduta de Saul para com ele próprio sobre seus maus conselheiros” (George B. Caird, in loc.). Podemos estar certos de que havia homens que desempenhavam esse triste papel, mas Saul havia caído na degeneração, e isso não era culpa de ninguém, senão dele mesmo. Davi, sem dúvida, tinha vários inimigos na corte de Saul, mas eles não poderiam fazer nada a menos que Saul tivesse promovido a causa perversa. Falsas acusações, principalmente de traição, teriam sido investigadas por um Saul dotado de mente sã.
24.10
O Senhor te pôs em minhas mãos nesta caverna. Davi concordou que fora Yahweh quem entregara Saul, de forma totalmente inesperada, à sua mercê, e que Davi poderia ter-lhe tirado a vida. Além disso, Davi disse a Saul que alguns de seus homens o haviam exortado a fazer isso. Saul só sobreviveu devido à magnanimidade de Davi. E Yahweh recebeu o crédito por essa atitude. Davi estava mais interessado em agradar a Deus do que em livrar-se das ameaças e perseguições de Saul. Davi julgara que a presença de Saul na caverna fora arranjada por Yahweh por outra razão, e não para que houvesse morte. Essa razão era a reconciliação, com o abandono dos intuitos assassinos de Saul, conforme sugerem os versículos que se seguem.
24.11
Olha, pois, meu pai. É admirável que Davi tenha chamado Saul de “meu pai”, mostrando-lhe o respeito de um filho. Ele havia cortado um pedaço de seu manto e, naquele momento, pode ter sido tentado a matá-lo, conforme diz Ben Gersom. Mas Yahweh o impedira de maltratar o ungido, embora por certo Saul merecesse tal tratamento. As ações provaram que Davi não tinha cometido erro algum. Ele não era nenhum traidor. Um traidor teria matado Saul sem hesitação, para apoderar-se do trono. O pecado estava do lado de Saul, que “caçava a vida de Davi”, conforme o texto sagrado diz. “A expressão meu pai é a reverência de um jovem por um homem de idade, ou de um súdito leal pelo seu soberano” (Ellicott, in loc.). “Sem dúvida é um instinto sadio aquele que impede os homens de tratar com desprezo seus governantes. Uma doutrina como a do direito divino dos reis, ou a deificação real de governantes, como se via no antigo Egito ou em Roma, parece quase uma tolice para o cidadão de uma república. Bem pelo contrário e muito apropriadamente, ele sabe que o seu direito é desafiar as ações de um governante. Não obstante, o regicídio é um crime particularmente sério” (John C. Schroeder, in loc.). Ao comentar sobre este versículo, os Targuns sugerem que foi depois dessa cena que Davi escreveu o Salmo 7.
24.12
Julgue o Senhor entre mim e ti. Yahweh é aqui invocado como testemunha da situação e para afirmar o julgamento de Davi sobre o caso. Davi não se vingaria. Mas sabia que Yahweh faria isso, no tempo certo. Davi tinha grande fé na lei da colheita segundo a semeadura e de que nada acontece por mero acaso. Ver no Dicionário o verbete intitulado Lei Moral da Colheita segundo a Semeadura. O filósofo Emanuel Kant tinha um sentimento tão forte em relação a essa lei moral que compôs um argumento racional tanto em favor da existência de Deus como em favor da alma humana. A justiça precisa ser feita. Mas ela não é feita na terra. Portanto, para corrigir os erros, esse princípio é seguido pela verdade das almas que sobrevivem no pós-túmulo. Elas precisam ser julgadas, recebendo o bem pelo bem e o mal pelo mal que tiverem praticado. Então, deve haver um Juiz capaz de garantir a justiça do julgamento, de castigar ou recompensar. E somente Deus é capaz de julgar dessa maneira. Portanto, Deus deve existir, para satisfazer a um princípio moral. “Davi não desculpou o fracasso ou injustiça de Saul. Nem se inflou diante de sua própria superioridade. Antes, deixou seu caso ao encargo do julgamento divino, vs. 15" (John C. Schroeder, in loc.). “Apelos para esse tipo de Deus são o refúgio comum dos pobres e oprimidos” (Adam Clarke, in loc.).
24.13
Dos perversos procede a perversidade. A confiança na retribuição divina alivia um homem de vingar-se pessoalmente. O sentimento expresso aqui por
I SAMUEL 1211
Davi concorda com o trecho de Rom. 12.19: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor”. Paulo citou o trecho de Deu. 32.35. “O mal retrocede sobre a cabeça do culpado, pelo que nenhum ato por parte de Davi era necessário.., O provérbio significa que atos perversos são cometidos pelos pervertidos, mas eles pagarão por isso, no final” (George B. Caird, in loc.). Ver no Dicionário o artigo detalhado chamado Retribuição.
O Provérbio. Davi citou um provérbio conhecido desde tempos antigos. Minhas fontes informativas não informam a origem desse provérbio, mas há um provérbio grego parcialmente paralelo: “De um corvo ruim sai um ovo mau".
24.14
Após quem saiu o rei de Israel? O que Saul esperava conseguir com a morte de Davi? Se ele o tivesse matado, ter-se-ia livrado de uma criatura tão vil como uma pulga ou um cão morto. A linguagem aqui usada por Davi é extremamente autodepreciadora, mas presumimos que é sincera. A maior parte das autodepreciações é uma tentativa de obter favor diante de outra pessoa. De fato, usualmente é uma forma de louvor enganador. Saul não se deixaria enganar por tais palavras, fossem elas sinceras ou não. Pois ele sabia que, de fato, Davi era um grande guerreiro, uma pessoa carismática que havia sido ungida para ser o próximo rei. Saul estava apenas tentando derrotar a profecia através da violência. Nem tudo quanto um profeta diz acaba tornando-se realidade. Isso posto, Saul procurava injetar um pouco de erro na incomum habilidade de Samuel prever o futuro. Lemos em I Sam. 9.6 que “tudo" quando ele previa se tornava realidade. Essa era a reputação de Samuel. Essas símiles domésticas mas vívidas são muito comuns nas conversas diárias orientais. Por certo Davi, em seus protestos de lealdade, dificilmente poderia humilhar-se mais do que se referindo a si mesmo como um cachorro morto, em comparação com a grandeza de Saul. Davi também era apenas como uma pulga. É extremamente difícil apanhar uma pulga e, se não for apanhada, ela continuará sendo apenas uma pulga. Caso a pulga seja apanhada, seu perseguidor a mata instantaneamente. Portanto, quer livre, quer capturado, Davi não era nenhuma ameaça para Saul. “... uma pulga, um animalzinho pequeno e desprezível, que não pode ser apanhado facilmente... e, quando apanhado, de nada serve” (John Gill, in loc.).
24.15
Seja o Senhor o meu juiz. Novamente, Davi invoca Deus como testemunha (cf. o vs. 12) de que suas palavras estavam corretas, e repreende Saul por suas intenções perseguidoras e assassinas. Yahweh é quem defenderia a causa de Davi, com o resultado de que este não precisaria vingar-se do selvagem Saul. Parte da inocência demonstrada por Davi era o fato de que Yahweh o livrara das mãos de Saul. Seus planos seriam reduzidos a nada. “Contentar-me-ei em esperar pela providência de Deus e permanecerei nas tristes condições em que me encontro, até que agrade a Ele delas tirar-me” (Bispo Sanderson, citado por Wordsworth, in loc.). “Que Deus determine quem é o culpado” (Adam Clarke, in loc.). Cf. com Sal. 7.6,8-11.
24.16
E chorou Saul em voz alta. A emoção do momento. Até mesmo em sua degradação, Saul tinha bons momentos. Cf. I Sam. 19.6, quando, certa ocasião, Jônatas foi capaz de convencer o pai a abandonar sua loucura. Mas pouco depois, a despeito de sua boa resolução, Saul já havia tentado novamente contra a vida de Davi (19.9), o que o autor sagrado atribuiu à influência de algum espírito maligno. Foi assim que, mediante uma emoção positiva e momentânea, Saul chorou e abandonou (temporariamente) a perseguição contra Davi. Ele até proferiu uma bênção sobre o servo, da parte de Yahweh, e chamou-o de “meu filho”, por causa do que Davi tinha feito naquele dia, mostrando bondade, quando ele nada merecia (vs. 19). Temos aqui uma ótima lição espiritual. Em momentos de emoção, tomamos boas resoluções que posteriormente abandonamos. A espiritualidade, porém, precisa ser mais profunda que as emoções. Por isso, veremos Saul novamente perseguindo Davi. Ele nunca desistiu, senão quando a morte o colheu. I Sam. 26.17 é paralelo a este versículo, e alguns críticos pensam que o presente trecho é uma duplicação do capítulo 26, ou seja, um relato diferente da mesma história. Mas os detalhes são suficientemente divergentes para indicar um mesmo acontecimento. Em ambos os casos, Davi foi identificado por sua voz, enquanto ele e Saul gritavam um para o outro. “Nada há de estranho nessa súbita mudança de sentimentos, em alguém tão nervoso e excitável quanto Saul... mas a triste seqüela mostrou que a impressão havia sido apenas transitória” (Ellicott, in loc.). “A magnanimidade de Davi causou profunda impressão em Saul. O homem derrotado enfrentou realisticamente a superioridade de seu rival. Ele agora reco
nhecia que Davi seria rei e pleiteou em favor de sua família, para que fosse poupada de aniquilamento” (John C. Schroeder, in loc.).
24.17
Disse a Davi. Não fazia muito tempo que Saul estava tão cego por sua loucura que chegou a supor que Yahweh o ajudava em sua caçada a Davi e em seu intuito de ceifar-lhe a vida (ver I Sam. 23.7,20,21). Mas agora, repentinamente, ele mudou de idéia sobre a retidão de suas intenções e atos. E viu a si mesmo como realmente era: um degenerado que sucumbira em sérios crimes. Entrementes, o caráter moral de Davi resplandecia, revelando assim as trevas do coração de Saul. É algo particularmente desgostoso quando alguém faz mal a um amigo que nada fez senão o bem. Saul havia caído em uma série de desgraças com suas tentativas insanas de preservar a autoridade em Israel.
24.18
Mostraste hoje que me fizeste bem. O ato misericordioso de Davi naquele dia teve o condão de iluminar a mente de Saul, mostrando-lhe quão bem Davi o havia tratado o tempo todo. Agora Saul dava a Yahweh o crédito por tê-lo entregado nas mãos de Davi, e reconheceu que esse mesmo poder divino não permitira que Davi o matasse. “É triste ver um homem despedaçar-se. Aqui, por um momento, Saul pareceu ter enfrentado honestamente a si mesmo, após todos os equívocos e autoludíbrios... Essa foi uma das mais elevadas experiências da vida de Saul. Se ao menos o restante de suas experiências tivesse sido equivalente a isso!” (John C. Schroeder, in loc.). Esse reconhecimento deveria ter sido o fim de um triste caso. Mas em breve (capítulo 26) veremos Saul de volta aos antigos caminhos de perseguição a Davi.
24.19
A pergunta retórica constante neste versículo mostra-nos que Saul antecipava um “não” como resposta. Nenhum homem, tendo tido a oportunidade de matar um inimigo, permitir-lhe-ia escapar. No entanto, foi exatamente o que Davi havia feito, e Saul era o beneficiário da ação. O coração endurecido de Saul deixou-se comover por esse exemplo de bondade desmerecida. Saul era homem de batalhas e matanças. Já havia enfrentado muitos inimigos cuja única intenção era matá-lo, se tivessem a oportunidade. E ele mesmo, quando surgira uma boa oportunidade, nunca deixara um inimigo escapar, dando-lhe a chance de armar um contra-ataque em ocasião oportuna. Saul despachara todos eles, sem hesitação. O fato de que Davi não atacara, deixara Saul embasbacado. Essa era uma espécie diferente de moralidade, com a qual ele não estava acostumado. /4s versões siríaca e árabe têm um interessante texto alternativo que alguns estudiosos supõem refletir o texto hebraico original: “Se um homem encontra seu inimigo e o deixa ir-se, o Senhor o recompensará, pelo que o Senhor te recompense (ó Davi)”.
24.20
Tenho certeza de que serás rei. Saul reconhece o que ele mais temia: Davi, de fato, seria o segundo rei, enquanto ele mesmo seria substituído, o que também significava que seus familiares não continuariam na realeza. Era disso que Samuel sabia o tempo todo e comunicara a Davi quando o ungiu como rei (I Sam. 16.1013). Além do mais, o profeta do Senhor tinha dito antes que Saul seria substituído e sua família não continuaria ocupando o trono (15.28 ss.). Jônatas também estava ciente dessa mudança e a aceitara, tendo apenas pedido a Davi que sua família não fosse aniquilada pela nova linhagem real (20.13-16). Saul sabia o que aconteceria, mas não se conformou. Pensou que poderia derrotar e anular a profecia através da violência, eliminando o rival. Agora Saul reconhecia o inevitável e, pelo menos momentaneamente, submeteu-se ao seu destino.
24.21
Jura-me pelo Senhor que não eliminarás a minha descendência. Era costume no Oriente que novas dinastias reais, especialmente se o poder tivesse sido obtido por meios violentos, aniquilassem os membros da dinastia anterior, para pôr fim a toda a competição. Se Davi tivesse sido um homem como Saul, não hesitaria em fazer precisamente isso. Jônatas, filho de Saul, já havia estabelecido uma aliança com Davi, que incluía a proteção para a sua família. Ver I Sam. 20.15-17. Essa aliança foi renovada (I Sam. 20.42). É provável que a renovação do acordo, ainda em outra ocasião (ver I Sam. 23.18), incluísse a promessa de não-aniquilamento da antiga linhagem real. Agora foi a vez de Saul extrair de Davi o mesmo juramento, conforme demonstra o presente versículo. Embora Saul fosse uma máquina de matar, ele não queria que a violência chegasse à sua própria família. Restava-lhe algum afeto natural, mesmo que ele não exercitasse misericórdia com seus inimigos.
1212 I SAMUEL
Como exemplos de matanças da antiga dinastia, em Israel, ver I Reis 15.29; 16.11 e II Reis 10. A última referência narra a história de como os súditos futuros de Jeú mataram toda a família de Acabe e puseram a cabeça de setenta príncipes em cestos, apresentando-as ao novo rei como um horrendo troféu de sua obediência. Saul conhecia esse costume, pelo que seu temor em relação ao futuro de sua família não era vão. “Sem dúvida, o temor de alguma terrível catástrofe que sobreviesse aos próprios filhos e amigos fazia parte da punição que Saul estava sofrendo” (Ellicott, in loc).
24.22
Então jurou Davi a Saul. Davi fez um juramento solene diante de Saul: ele pouparia a família de seu desafeto e não seguiria o costume bárbaro. Diante disso, Saul voltou à sua casa (em Gibeá), e, ao que tudo indica, Davi permaneceu em Adulão, ou foi para Mispa, conforme dizem as versões siriaca e árabe. Cf. I Sam. 22.1,3. Talvez ele tenha ido para En-Gedi (I Sam. 23.29). É possível que nessa época tenha sido composto o Salmo 57. O livro de II Samuel mostra-nos que Davi não cumpriu sua palavra em um sentido absoluto. Sete filhos de Saul foram mortos, por causa da insistência dos gibeonitas. Mas Davi poupou Mefibosete, por causa do juramento que tinha feito a Saul (I Sam. 21.7). John Gill explicou que Yahweh não estava limitado pelos juramentos humanos, e o que aconteceu teve o concurso da vontade de Deus; mas essa é uma explicação bastante dúbia. Antes, parece que a antiga violência obteve outra vitória, apesar das boas resoluções dos homens. Crisóstomo (tomo iv. parte 761) tem um eloqüente comentário sobre o exem- pio magnânimo de Davi, ilustrado pela história seguinte: “Davi pregou um sermão pelo seu exemplo e ofereceu um sacrifício autêntico, o sacrifício espiritual de sua própria pessoa e de sua própria ira... Oferecendo aquelas vítimas, ele obteve gloriosa vitória"

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